
A redacção do Expresso da Meia-Noite (eu) está num curso de Bordado e Ponto-Cruz. Por este mesmo motivo esta semana, à semelhança da anterior e da próxima, não haverá posts nem Expresso da Meia Noite.
Porque afinal nada disto tem razão de ser
Frida Kahlo«Sozinho no quarto, Ângelo admirava-se de nada sofrer. Ouvia, ao lado, sua mulher gemer, mas não podia apertar-lhe as mãos porque ela o ameaçava com o revólver. Preferia gritar sem ninguém ao pé, pois odiava a sua enorme barriga e não queria que a vissem naquele estado. Ia para dois meses que Ângelo ali estava sozinho, à espera que aquilo terminasse; e meditava em ínfimos assuntos. Também andava frequentemente à roda, por ter lido, em reportagens, que os prisioneiros andam à roda, como animais, mas que animais seriam? Dormia e tentava dormir, a pensar no rabo da mulher, pois, dada a barriga que tinha, preferia pensar nela de costas. Noite sim, noite não, acordava em sobressalto. O mal, em geral, já estava feito, e não era mesmo nada satisfatório.
Os passos de Jaimemorto ressoaram pelas escadas acima. Ao mesmo tempo, pararam os gritos da mulher e Ângelo sentiu-se varado de espanto. Aproximando-se de mansinho da porta, tentou ver, mas o pé da cama tapava tudo e, assim, torceu dolorosamente o olho direito sem resultados apreciáveis. Ergueu-se e apurou o ouvido, para ninguém em especial.»