O Dia da Minha MorteAcordou com a cara molhada e levou imediatamente as mãos aos olhos para os limpar. Ainda perdida naquela languidez natural dos primeiros minutos de consciência, percebeu que chorava e sorria ao mesmo tempo. Não era a primeira vez que via assim tudo tão nítido, tão real. Já o tinha projectado acordada, uma, e duas e muitas vezes. E aí sim, era completamente manipulável. Resistia ao choque, colocava este e aquele um pouco mais infidavelmente infelizes e desconstruia tudo logo a seguir. Choravam todos, alguns até pareciam despedaçados. Vestiam de negro e mantinham os óculos escuros na cara. Havia flores e aquele cheiro nauseambundo, como num funeral normal. E depois eles iam para casa e viviam as suas vidas normais. Não lhes fazia falta. Não lhe sentiam a falta. Tudo era igual ao que sempre era. Com a diferença que perderam um ou dois dias de trabalho em convivio social na cave da igreja. Esteve lá o padre, elas levaram as violas e conseguiram entoar um cântico como antigamente e naquelas horas foram amigos todos outra vez. Confortaram a minha mãe, pobre mãe. Preocupada com os meus filhos e com os filhos deles, ficou viúva e orfã e desamparada e tudo ao mesmo tempo. Ainda bem que morri primeiro. O pior de tudo deve ser perder um filho, não é mãe?
Ainda de olhos fechados, recordei aquele tormento que é ter um filho. Será mais doloroso tê-lo ou perdê-lo. Um doi de morte. O outro não quero nem saber. Ela disse-me antes de ir para a maternidade e é verdade. "Agora, vais ver o que é amor de mãe!" Disse-o quase como quem diz, "come que te faz bem!", ou "agasalha-te que arrefece!". Disse-o porque sabia que era dona dessa verdade e que era a melhor coisa que me poderia dizer naquela altura. Como se me quisesse aliviar as dores, como se me quisesse fazer crer que se pudesse tinha ela as contracções por mim. A verdade é que, depois daquele tormento, esgotada, infeliz, dorida, assustada... depois disso tudo eu percebi finalmente o que aquelas palavras queriam dizer. Mas vale de quê? Eles depois fazem-se, criam laços, querem ser independentes e procuram o oposto do que lhes queremos dar.
Foi isso que aconteceu comigo e no dia em que quis voltar atrás já estava lá a distância quase impossível de ser percorrida. E, quando isso acontecia, quando acontecia visualizar aquele momento de dor tinha pena da mãe, de não lhe ter dado mais e ainda por cima ter-lhe causado aquele desgosto.
Ali estava ela. Parecia sincera. Eu sabia que ela estava a ser sincera. Se havia alguém que me podia chorar era ela. Era também por isso que, mesmo não comendo nada nos dias seguintes, se preocuparia em que nenhum deles se acomodasse à fome. Serviria-lhes qualquer coisinha, uma canja, ou algo mais saboroso. "E se fizesse um frango de fricassé?" Alguém encolheria os ombros na secreta esperança que estivesse a falar a verdade, mas no descaso não se sentisse obrigado ainda a descacar batatas para fritar. Viriam todos para a mesa à hora certa, que naquela casa sempre se comeu a horas, ou até um bocadinho antes, para à hora se estar em frente à televisão. No tempo do meu pai, cada um via o que queria. Cada quarto tinha uma televisão. Invarialvelemente ele ficava na sala, no seu lugar ao sofá, comando na mão a mudar entre os três canais de desporto que tinha. Ela acabava por ficar no banco duro da cozinha, porque se sentasse comodamente o sono vinha mais depressa e não apanhava nada do episódio da telenovela. Gostava de acompanhar os dramas exagerados das personagens mal interpretadas daquilo a que um dia chamaram a ficção portuguesa. Eu acabava por lhe perguntar de passagem quem é que encornava quem (porque sabia que tinha de haver sempre um corno e isso era talvez o que poderia dar um toque de realidade áquilo), ela até se entusiasmava a dizer que fulano gostava de sicrano mas este era um grandessissimo filho da mãe que só queria putas e moinice. Claro que ela não usava estes termos. Eu é que tentava apimentar a coisa para a tornar um pouco mais ordinária. Mas ela não ia em cantigas e mudava de mão de apoio à cabeça descaída. Se pasasse lá a seguir já estava de olhos fechados e se lhe perguntasse, asseguraria que estava a ouvir, só descansava os olhos.
Foi numa dessas noites, nesses encontros tardios na cozinha da sua casa, numa altura em que regressei e vivi lá uns meses, que vi uma cena de um funeral numa daquelas telenovelas que me transportou para o meu. Ela levantou-se para me oferecer algo, não podia deitar-me de estômago vazio e com o copo de leite na mão eu subi ao cimo daquele núvem, como fazia na minha adolescência, e fiquei a ver a cena cá em baixo. Dei-lhe uma desculpa qualquer para não comer a torrada e enfiei-me no meu quarto para poder viver aquele momento como ele merecia ser vivido, com toda a pompa e circunstância.
(continua, um dia)